O uso de imagem por IA em artigos científicos
- Flavia Pinheiro Zanotto

- 31 de mai.
- 3 min de leitura

Afinal, você pode usar imagens criadas por IA em artigos científicos?
A Inteligência Artificial já deixou de ser uma tecnologia do futuro para se tornar uma ferramenta presente na rotina de muitos pesquisadores. Hoje, é possível criar figuras complexas, diagramas sofisticados e até ilustrações com aparência profissional em poucos minutos.
Mas surge uma dúvida cada vez mais frequente:
Imagens geradas por IA podem ser utilizadas em artigos científicos?
A resposta é: depende.
Tudo começa com uma distinção fundamental: nem toda figura científica tem a mesma finalidade.
Quando a imagem representa um dado científico
Algumas figuras não servem apenas para ilustrar um conceito. Elas são, na verdade, parte do próprio resultado científico.
É o caso de:
Fotografias clínicas;
Imagens de microscopia;
Exames de imagem;
Géis de eletroforese;
Gráficos de resultados experimentais;
Mapas produzidos a partir de dados coletados.
Nessas situações, a figura funciona como uma evidência científica. Ela documenta observações reais obtidas durante o estudo.
Por esse motivo, o uso de IA para criar, modificar ou complementar essas imagens pode gerar sérias preocupações éticas e comprometer a credibilidade dos resultados apresentados.
Quando a imagem tem função ilustrativa
Existe, porém, uma segunda categoria de figuras muito comum na literatura científica: as ilustrações destinadas a facilitar a compreensão do leitor.
Entre elas estão:
Esquemas de mecanismos fisiopatológicos;
Diagramas de vias metabólicas;
Graphical abstracts;
Fluxogramas;
Ilustrações conceituais.
Nesses casos, a imagem não representa um resultado experimental. Sua função é didática.
Por isso, muitas revistas aceitam o uso de ferramentas de IA para auxiliar na criação dessas figuras, desde que exista transparência sobre sua utilização e que a ilustração não seja apresentada como um dado científico real.
O que as revistas científicas estão discutindo?
Embora existam diferenças entre periódicos e editoras, algumas recomendações aparecem de forma consistente nas diretrizes mais recentes:
O autor continua sendo integralmente responsável pelo conteúdo apresentado;
O uso de IA deve ser informado quando relevante;
Figuras ilustrativas não podem ser confundidas com observações reais;
Ferramentas de IA não devem ser utilizadas para fabricar, alterar ou manipular resultados científicos.
Em outras palavras, a principal preocupação dos periódicos não é a tecnologia em si mas na preservação da integridade científica.
Quais são os principais riscos?
1. Erros científicos visualmente convincentes
Um dos maiores desafios das ferramentas generativas é que elas podem produzir imagens extremamente bonitas, mas cientificamente incorretas.
Estruturas anatômicas inexistentes, organelas mal representadas ou relações biológicas equivocadas podem passar despercebidas à primeira vista.
2. Falta de reprodutibilidade
A ciência depende da capacidade de reproduzir resultados.
Já uma imagem criada por IA nem sempre possui rastreabilidade suficiente para que outro pesquisador obtenha exatamente o mesmo resultado utilizando o mesmo processo.
3. Questionamentos durante a revisão por pares
Revisores experientes costumam analisar cuidadosamente a origem das figuras.
Inconsistências visuais ou ausência de transparência podem levar a pedidos de esclarecimento, revisões adicionais ou até rejeição do manuscrito.
4. Problemas éticos e de integridade científica
O cenário mais preocupante ocorre quando uma imagem artificial é apresentada como se fosse uma observação experimental real.
Nesse caso, o problema deixa de ser apenas metodológico e passa a envolver questões de integridade científica e potencial má conduta em pesquisa.
Boas práticas para autores
Se você pretende utilizar IA na produção de figuras científicas, algumas medidas podem reduzir riscos:
✔ Utilize a IA apenas para fins ilustrativos;
✔ Revise cuidadosamente todos os elementos da imagem;
✔ Confirme a precisão científica do conteúdo apresentado;
✔ Consulte as diretrizes da revista antes da submissão;
✔ Declare o uso da ferramenta quando apropriado;
✔ Guarde registros dos prompts e das etapas de edição.
Conclusão
A Inteligência Artificial tem potencial para transformar a comunicação científica, especialmente na criação de ilustrações, diagramas e graphical abstracts de alta qualidade.
Quando utilizada com transparência, responsabilidade e revisão crítica, a IA é uma excelente aliada dos pesquisadores. Mas sem esses cuidados, pode comprometer justamente aquilo que a ciência mais valoriza: a confiança nos dados apresentados.




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