• Flavia Pinheiro Zanotto

Por que não publicamos artigos com alto impacto científico?


Escrito por Dra. Adriana Valio Pesquisadora do Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica Mackenzie (CRAAM) Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências e Aplicações Geoespaciais da Universidade Presbiteriana Mackenzie.


O Brasil está entre os 20 países que mais publicam artigos no mundo, segundo ranking internacional, bem à frente dos outros países da América Latina. Entretanto, ao medir o impacto da ciência brasileira, percebe-se que esta liderança desaparece. Por exemplo, embora o número de publicações de autores afiliados a uma instituição brasileira seja quase 10 vezes maior que o número dos artigos de pesquisadores colombianos, o percentual de artigos brasileiros entre os mais citados do mundo é apenas a metade dos nossos colegas da Colômbia. Por quê? Claro que medir o impacto de uma publicação científica é algo complexo e que varia entre as áreas do conhecimento. A análise mencionada acima diz respeito mais às ciências exatas, biológicas e da saúde, uma vez que as ciências humanas e sociais, mais concentradas em problemas brasileiros, naturalmente priorizam menos as publicações internacionais.

Estudos recentes mostram que o impacto da ciência produzida pelas melhores universidades brasileiras, medido pelas citações de artigos científicos de autoria dos seus pesquisadores, aumentou em 50% nos últimos 20 anos, evidenciando o esforço de cientistas brasileiros. Entretanto ainda há muito espaço para crescer.

Mas o que faz um trabalho ter mais impacto, ou citações, que outros?


  1. Um fator é a divulgação do trabalho que geralmente é feita por meio de apresentações em congressos internacionais. Principalmente se esta apresentação for oral, atingirá um número bem maior de cientistas em comparação com uma apresentação no formato de pôster. Considerem isso. Porém a falta de verba para participação em congressos internacionais que envolvam viagens caras pode ser um fator limitante, mas não explica porque ficamos atrás de países como a Colômbia, Chile e Argentina quanto ao percentual do número de artigos entre os mais citados mundialmente. 2. Manter colaborações com pesquisadores de outras instituições, principalmente internacionais, também aumenta o impacto da sua pesquisa. Embora os congressos online propiciem a participação em um número maior de eventos de forma a manter-se informado dos últimos desenvolvimentos da sua área, a falta de troca de ideias informais nos coffee breaks prejudica a formação de novas redes de colaborações. 3. Já que falamos em verba, com certeza o financiamento de agências federais e estaduais à pesquisa influencia no seu desenvolvimento. Países como a Coreia do Sul e China investiram e continuam investindo pesadamente em pesquisa, e hoje colhem os frutos. Fazer pesquisa de ponta custa caro: manter laboratórios, comprar ou construir instrumentos específicos, mais ainda. Na minha área, que é a Astronomia, grandes consórcios muitas vezes entre instituições de vários países são formados para bancar o custo bilionário dos grandes telescópios em solo ou no espaço.


Quais seriam então as prováveis soluções? 1. Cabe ao Brasil e aos brasileiros perceberem que o custo de fazer ciência no país é um investimento e não um gasto. Muitas vezes o desenvolvimento de um dado instrumento ou uma descoberta em laboratório levam a uma aplicação inesperada para a sociedade como um todo. Não apenas isto, mas são necessárias políticas públicas de longo prazo, muitas vezes de décadas, com um apoio financeiro contínuo. 2. Caso você tenha o privilégio de orientar alunos de iniciação científica ou pós-graduação, dedique tempo a desenvolver e cobrar um senso crítico dos seus orientandos. Incentive-os a questionar as propostas de pesquisa que lhes são oferecidas, principalmente as suas, para que não façam mais do mesmo, repetindo o que já foi feito por você ou membros do seu grupo.


3. E finalmente ideias não surgem do vácuo, portanto, é importante sempre estar a par dos últimos desenvolvimentos da sua área de pesquisa lendo os artigos publicados recentemente, inclusive não diretamente relacionados à sua linha de pesquisa. Quantos artigos científicos você e seus alunos costumam ler por semana? Assistir a seminários que não sejam diretamente ligados à sua linha de pesquisa também é uma boa dica. Muitas vezes ideias novas surgem da interdisciplinaridade entre áreas de pesquisa.

E como andam as citações dos seus artigos? A ciência que você faz é inovadora, ou mais do mesmo? Antes de iniciar um novo projeto, você faz um levantamento das lacunas do conhecimento na sua área de pesquisa? Quais são as questões ainda em aberto? Não necessariamente as questões que estão na moda no momento. Todo trabalho que tem alto impacto na sua área de pesquisa começou de uma ideia inovadora.

✅ Portanto, vale a pena investir inicialmente um tempo em selecionar as ideias que devem ser postas à prova. Causa insegurança? Os resultados aparecerão mais tarde!


Para saber mais: https://metricas.usp.br/how-good-are-brazilian-universities/


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